Satyavrata - Artigos
Cinco perguntas
20 de Maio de 2010

O que é Yoga para você?

 

Yoga é autoconhecimento
 
A palavra Yoga pode possuir vários significados. Para mim, o que vêm primeiro a minha cabeça é o conceito de trabalho ou disciplina.


Todos nós vemos o Yoga como uma prática, e esta, deve ser utilizada como um meio para disciplinar as ferramentas que possuímos para viver. Falamos então de corpo e mente.
Esta disciplina começa com tapas, que é o empenho que precisamos empregar para começar. Separar um momento do dia para a prática, e muito mais do que isso, querer realizá-la. Este esforço é aplicado somente no início, quando precisamos de um “incentivo” extra para que a prática se torne cotidiana. Mas este esforço, por si só, também não nos levará tão longe. Este esforço, aos poucos, pode gerar certa tensão, rigidez, resistência.


Disciplinar corpo e mente é como educar uma pequena criança. Você dá o exemplo a ela: “Não pegue este copo de vidro!” Ela não entende porque não pode pegar o copo, e se você tirar os olhos dela, assim que puder, ela voltará a pegá-lo.


Se este copo cair e se quebrar, você dará uma bronca na criança. Mas não é pela bronca que ela vai compreender. É pelo fato de ter quebrado algo. Ela entende que não é legal quebrar as coisas. Ela compreende o valor do objeto e da sua ação.


Então o esforço para manter a criança longe do copo não é mais necessário. Isso é o desapego (vairagyam). Uma conseqüência de toda a disciplina (Yoga) repetida durante certo tempo (abhyasa). 
 
Os obstáculos e os resultados que colhemos através de uma vida de Yoga
 
1 – O corpo 
 
O ásana, o assento. Assentar-me em meu próprio corpo. Suportá-lo simplesmente por cinco minutinhos sem aquela coceira de agitação, sem abrir os olhos e olhar para o relógio que está contando o meu tempo ali, ou sem sentir o meu joelho reclamando, a perna formigando.


Por isso, primeiro vem a disciplina do corpo. Na visão do Yoga o corpo deve sempre ser um lugar "estável e confortável". Os textos mais antigos de Yoga mostram que os sábios  tratavam seus corpos como lugares onde tudo de ruim se acumulava. Dores, doenças e a própria morte.


Somente mais tarde, estes foram perceber que este corpo também serviria para muitas coisas boas, como para o conhecimento da sua própria natureza. E então começaram a tratá-lo de maneira diferente. Fala-se sobre o "corpo de diamante" (vajradeha). Um corpo forte, puro, lapidado. Então, a prática dos ásanas serviria para isso.
Para que eu me estabeleça, me assente em mim mesmo. E, nesse momento, possa aguçar o meu senso de observação a estratos mais sutis, como os meus próprios pensamentos. 
 
2 – A mente 
 
Uma vez, ouvi de um professor: “A mente se chama mente porque ela mente”. Mas, por que dizer isso? A nossa mente se abastece de estímulos, ou experiências que temos ao longo da vida. Estas experiências são armazenadas em nosso corpo e nossa memória, e volta e meia, estas, vêm à tona.


O problema é que nossos instrumentos para captar estes estímulos não são tão precisos, e às vezes nos enganam. Visão, audição, tato e etc. estão sujeitos às interpretações da mente de cada um. Aquilo que eu vejo, pode não ser o mesmo que você vê. A mesma comida pode estar muito apimentada para mim e muito saborosa para você.


As experiências se tornam fatos relativos, não têm um valor absoluto. E o que acontece é que acabamos nos identificando intensamente com estas experiências, memórias e pensamentos. Criamos condicionamentos. Evitamos experiências que não foram agradáveis e tentamos repetir aquelas que nos deram prazer.


Quando nos identificamos com os pensamentos, acabamos por achar que somos estes pensamentos. Se pensarmos algo ruim, logo nos sentimos culpados. Mas não há como controlar ou comandar determinado tipo de pensamento. Ele simplesmente surge.


E novamente a questão não é se controlar, mas visualizar estes pensamentos simplesmente sendo o que eles são. Idéias, memórias, projeções. A partir do momento em que realizamos isto, nos aproximamos um pouco mais daquilo que é a natureza do Yoga. A definição do Yoga em si: Yogashchittavrittinirodhah. Traduzindo, "Yoga é a cessação da identificação com as modificações da consciência".


A atitude de Yoga, o estado de Yoga se estabelece quando conseguimos cessar o princípio reativo da mente. Este condicionamento de reação e identificação automática com os impulsos e estímulos. A identificação com os pensamentos cessa. Eles continuam a acontecer, mas a mente não reage mais automaticamente. 


A partir do momento em que eu me estabeleço nesta não-reação da mente ou nesta não identificação, eu colho o fruto mais importante desta disciplina, que é vairagyam.
Vairagyam significa desapego. Desapego do resultado da ação e da noção de que Eu sou o realizador da ação.
 
Desapego não significa abrir mão das coisas que possuo. Tampouco deixar de possuir novos objetos. Mas entender que a natureza dos objetos não é aquilo que me traz o conhecimento sobre mim mesmo, ou a felicidade.
 
A partir do momento em que não me identifico mais com os objetos dos sentidos, a minha identificação se volta para mim mesmo.
 

Isso se chama reconhecimento da minha própria natureza. O meu estado natural, que é Yoga.
Por isso o estado de Yoga não pode ser ensinado, alcançado ou conquistado, pois ele já é o que você é naturalmente. Basta apenas que você reconheça.

 

2- Como você vê a relação da midia com o Yoga?
 

A mídia pode agir tanto como um elemento agregador, assim como um elemento destruidor da tradição do Yoga.
Pessoalmente não vejo nenhuma publicação de grande porte que fala sobre o Yoga como ele verdadeiramente é.


Seus editores insistem em afirmar que os temas não podem ser mais profundos pois a maioria dos leitores é leiga.
No meu ponto de vista, se isso continuar, os leitores continuarão leigos porque não serão estimulados a questionarem mais profundamente suas práticas.


Porém existem algumas pequenas publicações com textos maravilhosos e profundos sobre a tradição (ex: Cadernos de Yoga) e que deveriam der mais difundidos entre professores e praticantes.
 

3- E quais são os reflexos dessa relação midiatica com a filosofia indiana?
 

O yoga tornou-se um grande comércio e cada vez mais vemos produtos sendo agregados ao estilo de vida yogi.
Porém, quem já foi à India sabe que nenhum destes produtos de revista se encaixa na vida cotidiana de um estudante sério de yoga.


Um estudante de Yoga vive uma vida simples, Muito mais voltada para o conhecimento do que para trivialidades.
Acho que o ocidente tem uma idéia totalmente distorcida da cultura indiana. A maioria dos professores ou praticantes de Yoga nunca teve a oportunidade de vivenciar esta cultura em seu próprio território. Então muitas pessoas vivem se fantasiando de indianos por aqui.
 

4- Você acha que professor de Yoga pode ser chamado de profissão? E como você vê essa "profissão"?
 

Eu acho que existe uma diferença fundamental neste ponto. Existe o profissional de Yoga e existe o Yogi.
Hoje em dia vejo muitos profissionais mais preocupados com o marketing pessoal do que com o conhecimento.
Vários professores com quase nada de bagagem de estudos tornam-se respeitados por conseguirem projetar uma imagem que não é verdadeira.


Outros também agregam subprodutos do "mercado zen" ao Yoga e criam verdadeiras anomalias. Mas estas anomalias vendem. Pois são apelativas ao corpo ou as nossas carências emocionais. Existem professores de Yoga fazendo casamentos de artistas. Outros que misturam Yoga com Kaballah. Outros que preferem Yoga e circo (acroyoga).


Profissionais do Yoga estão interessados na projeção do nome e no lucro. Alguns possuem profissões paralelas que, de fato, são seus verdadeiros ganha-pães. Nada contra isso. Mas a maior parte destes profissionais não tem o Yoga como vocação e certamente não hesitarão em pular do barco do Yoga quando o sapato apertar.
Existem péssimos professores ganhando rios de dinheiro. Enquanto os bons, nem mesmo aparecem, pois não estão preocupados com a imagem.


Um Yogi é aquele que tem um compromisso sério com a vida de Yoga. Muito mais pelo lado pessoal, do que pelo profissional. Um Yogi assume uma postura na sociedade que envolve a não violencia (não consumo de carnes), a pureza (o não consumo de álcool ou drogas), um compromisso com a verdade (satyam) e principalmente um desejo ardente por liberdade (mumuksutvam).


O dinheiro é importante, pois devemos pagar nossas contas também. Mas acaba sendo uma conseqüência de algo que é feito sem esforço.
 
5- Como você vê o Yoga no ocidente e no Brasil?
 

O Yoga tornou-se um grande comércio. Mas isso não é exclusividade do ocidente. Mesmo na India, existem muitas distorções e muitas pessoas que querem se dar bem em cima da fragilidade dos outros. O Yoga tornou-se uma ferramenta de auto-ajuda, uma bengala.


O que é passado para os praticantes são apenas algumas técnicas paliativas que aliviam a nossa dor, mas não resolvem as principais questões.
Moksa que é o objetivo de uma vida de Yoga, não é quase nunca o assunto de uma prática. Valores, conduta também não.


Os praticantes se tornaram apenas contorcionistas ou pessoas que buscam um relax após o stress do trabalho.
Mas isso não é culpa deles. A culpa é dos que ensinam um Yoga limitado. A culpa é daqueles que não dão valor à tradição.

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O templo do Yoga
26 de Abril de 2010

O Yoga é como um templo: uma belíssima construção feita dos mais nobres materiais. Esse templo é o produto da contribuição de inúmeras gerações de sábios e yogis, que deram o melhor de si mesmos para esta obra. É o resultado de visões e revelações dos mestres ancestrais sobre o sentido da existência e como realizar nesta vida as mais altas aspirações humanas. Esse templo recebeu o fruto de milhares de praticantes silenciosos que o enriqueceram com suas dádivas. Apesar das inúmeras mãos, conhecidas e anônimas, que levantaram o prédio ao longo das gerações, é visível uma perfeita unidade na estrutura, já que o objetivo final do Yoga sempre foi a prioridade de todos esses artífices.

O templo é feito de mármore e granito, sândalo e ébano, prata e ouro. As paredes do templo são cobertas, por dentro e por fora, por uma infindável série de esculturas e pinturas, registro dos praticantes de outrora. Altas torres circundam a estrutura central. O conjunto é dominado por uma imensa cúpula dourada, que irradia luz em todas as direções e serve como guia para muita gente. As escadarias que conduzem ao interior impressionam pela largura, beleza e harmonia das suas linhas.

A entrada nesse templo pode fazer-se por qualquer uma das suas inúmeras portas e portais. Cada uma tem um nome, um tamanho e abre numa determinada direção. Porém, podemos acessar a riqueza do templo entrando por qualquer uma dessas aberturas. Poderíamos dar a cada uma um nome diferente: Mantra Yoga, Hatha Yoga, Karma Yoga, Jñana Yoga, Kundalini Yoga, Tantra Yoga... a lista é longa e as possibilidades são muitas.

O que interessa é que, independentemente da porta de entrada que usarmos, todos acabamos por nos encontrar no interior do templo. Esse “lado de dentro” do Yoga é chamado samadhi, iluminação, ou ainda moksha, liberdade. O templo do Yoga sempre esteve aberto para quem quisesse entrar nele, muito embora a iluminação não seja o objetivo de muita gente no presente, assim como nunca foi o objetivo da maioria no passado.

Os diferentes portais são os estilos e tradições do Yoga, que nos possibilitam ingressar no estado de paz. Não adianta, como fazem alguns teóricos, ficar discutindo sobre qual seria a melhor porta, qual seria a melhor entrada. Uma vez que você aprende o caminho para esse estado de paz interior, você olha para as portas e percebe que a diferença entre elas é algo supérfluo. O que realmente importa é estar no estado.

Uma vez que você adquire intimidade com o Yoga, qualquer porta de entrada pode ser usada, a qualquer momento. Uma vez dentro do Yoga, você reconhece quantas pessoas também estão nessa tranqüilidade e também se torna capaz de ajudar outrem a entrar.

Você percebe que cada pessoa se move livremente dentro do Yoga, e igualmente reconhece o quanto é importante compartilhar o espaço da maneira mais solidária e aberta possível. Você percebe da mesma forma, o quanto é importante manter as portas do templo abertas, de maneira que o maior número possível de pessoas possa se beneficiar da paz do Yoga.

Porém, aconteceu recentemente que o templo sofreu algumas reformas que não estavam nos planos dos arquitetos originais: algumas pessoas que deveriam zelar pela fluidez no acesso sofreram um ataque de amnésia e passaram a agir como proprietários das portas para o estado de liberdade. Restringiu-se assim a entrada de muita gente. Essas portas acabaram ficando bastante diferentes das originais. Algumas portas podem dar a impressão de conduzir ao interior do templo, mas em verdade terminam em corredores estreitos e escuros, muito longe do espaço sagrado central, onde brilham a luz do conhecimento e a plenitude.

Hoje em dia, então, podemos distinguir dois tipos de entrada no Yoga: o que sempre existiu, que são os ramos clássicos: Hatha, Raja, Jñana, Karma, Bhakti, Mantra, etc., e os produtos das novas reformas, que muitas vezes levam o nome do professor que ensina essas formas particulares, quase sempre centradas na prática física. Até aí, tudo bem, pois contribuições que possam enriquecer o Yoga serão sempre bem-vindas. O Yoga sempre foi pródigo em assimilar e sintetizar tradições que pudessem deixar sua mensagem mais clara e acessível, conforme os séculos passavam e as gerações se sucediam. Assim, algumas das grandes contribuições no campo dos Yogas centrados no corpo, como o Hatha ou a Yogaterapia, foram feitas por pesquisadores, fisioterapeutas e anatomistas ocidentais.

Porém, ninguém deveria considerar-se dono (ou representante do dono) de alguma porta especial, já que o Yoga é patrimônio de todos os humanos. Os “donos” das portas, inevitavelmente, acabarão por fechá-las. Uma porta assim, com a fechadura e dobradiças enferrujadas, não poderá mais ser aberta. Isso já aconteceu mais de uma vez, com tradições que foram esquecidas e que mais ninguém pratica ou conhece hoje em dia. Os vendedores de ingresso para usar algumas portas poderão ficar famosos ou ricos, mas certamente não serão lembrados como continuadores da verdadeira tradição.

Todas as portas são igualmente válidas para ingressar no estado de paz: o corpo, a meditação, a respiração, a devoção, o som, a ação ou o conhecimento. Não interessa que via você usa para entrar no estado de Yoga. Importa sim, se você consegue manter-se dentro desse estado, e se você faz alguma contribuição para que outras pessoas possam se beneficiar dele. Importa, principalmente, a maneira em que você se relaciona com os demais, estejam eles dentro ou fora do templo. Namaste!

Texto de Pedro Kupfer

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Vegetarianismo e Yoga
08 de Abril de 2010

Muita gente se pergunta o porquê da dieta vegetariana que nós yogis praticamos. Às vezes fica difícil discernir os motivos pelos quais o vegetarianismo é adotado sem uma compreensão mais profunda desses motivos. O discernimento e a compreensão são valores fundamentais para exercermos nossa liberdade. O yogi consciente não se torna vegetariano cegamente, porque alguém mandou, ou porque assim se faz há milênios. O yogi consciente adota o vegetarianismo como um corolário do processo de compreensão da realidade da vida e do papel que o homem exerce no planeta.

Este texto tem o propósito de contextualizar a prática do Yoga na cultura hindu, de maneira que a pergunta sobre o porquê do vegetarianismo possa ser devidamente respondida. Ao mesmo tempo, o presente artigo pretende ser uma fonte de reflexão e recursos para aqueles que, havendo incorporado algumas das práticas yogiks em suas vidas, se sintam curiosos ou preparados para darem esse passo em relação à alimentação.

Antes de começar, uma palavra sobre o dharma

A tradição do Yoga hindu nos ensina que a realização espiritual e a verdadeira felicidade somente são possíveis se nossos pensamentos, sentimentos e ações estiverem em harmonia com a ordem universal, chamada dharma. A palavra dharma significa 'aquilo que mantém unido', e refere-se não somente às leis naturais, mas igualmente à Força Consciente de coesão e harmonia que gera e mantém o universo. Tudo é harmonia no universo. Um exemplo óbvio dessa harmonia universal que é expressão do dharma, é que os planetas, cada um seguindo sua própria órbita, não se chocam nunca.

Porém, o conceito de dharma admite uma outra interpretação no plano humano. Nessa segunda interpretação, podemos afirmar que o dharma é um grupo de valores, eternos e universais, através dos quais se estabelece uma convivência harmoniosa na sociedade. A palavra dharma também pode ser interpretada como 'fazer a coisa certa'. Nesse sentido, dharma é aquilo ao qual o homem se mantém fiel ao longo da sua vida, o que pauta suas escolhas e ações. Em soma, sua missão de vida ou seu propósito humano.

O dharma e o código yogik de conduta

A compreensão plena do conceito de dharma é essencial para podermos integrar em nossa vida os aspectos mais profundos da prática do Yoga, pois este está intrinsecamente ligado ao código de conduta yogik, chamado yama e niyama.

O código de conduta yogik tem mais a ver com coerência, motivação e coordenação dos esforços do praticante, do que com repressão e controle. A coerência, a coordenação e a motivação que acabamos de mencionar são absolutamente essenciais para podermos distinguir o certo do errado a cada momento.

Esse código de conduta é o fruto de um longo processo de reflexão, discernimento e sensibilização que os yogis da antiguidade nos legaram. Esse código tem mais a ver com coerência, motivação e coordenação dos esforços do praticante, do que com repressão e controle. A coerência, a coordenação e a motivação que acabamos de mencionar são absolutamente essenciais para podermos distinguir o certo do errado a cada momento.

Vou lhe contar um exemplo que ilustra perfeitamente a diferença entre discernimento e repressão de que falei acima. Meu amigo George Porto Ferreira foi morar numa reserva ambiental em Rondônia, na Amazônia, como técnico ambiental do IBAMA. Parte importante do seu trabalho é defender a mata virgem através de ações contra as madeireiras que extraem ilegalmente árvores da selva. Um dos principais motivos do desmatamento, porém, é a criação de novas áreas de pastagem para manutenção dos rebanhos bovinos que serão usados como alimento pelo homem.

Recentemente, em uma de suas raras visitas a Florianópolis, George me contou que tinha se dado conta de que não fazia nenhum sentido para ele levantar a bandeira do ambientalismo se não assumisse definitivamente uma dieta vegetariana. Em suma, meu amigo não decidiu tornar-se vegetariano porque alguém tenha proibido ele de comer carne, mas porque simplesmente percebeu a incoerência entre o discurso ambientalista e sua decisão na hora de escolher o alimento que punha no prato.

Se você come carne, você não está unicamente se prejudicando com um alimento de qualidade altamente duvidosa, ou colaborando com a matança de milhões de animais usados como alimento: você está financiando o desmatamento da Amazônia. Assim simples.

Quem por um lado, discerne o certo do errado e, por outro, for capaz de colocar em prática o esforço para anular a distância que separa a retórica da prática, é um yogi de verdade.

Não-violência, dharma e vegetarianismo

Voltemos ao código yogik de conduta. Esse código existe para facilitar a tarefa da realização espiritual. Sem ele, não há como progredir na prática. Não obstante a importância deste código para o Yoga, hoje em dia muitos praticantes sequer suspeitam da existência dele.

O esteio central do código yogik é ahimsa, a prática da não-violência. Você certamente já ouviu falar na não-violência, uma prática yogik tão poderosa que, apenas aplicando-a, Mahatma Gandhi e os lutadores pela independência da Índia foram capazes de libertar aquele país do jugo colonialista inglês sem disparar um único tiro. Isso por sua vez, nos mostra o infinito poder transformador do Yoga. O ahimsa, portanto, é um formidável instrumento para nos mantermos harmonizados com o dharma.

Existem duas dimensões diferentes na prática da não-violência, que estão intrinsecamente ligadas: uma pessoal e uma social. A primeira tem a ver com a forma como a gente se relaciona consigo mesmo e com a nossa prática pessoal de Yoga. A segunda tem a ver com a maneira em que vivemos a vida em sociedade, com nossa família, nossos amigos, vizinhos ou colegas de trabalho.

A segunda dimensão da não-violência, a social, depende diretamente da primeira, assim como a unha está ligada à carne. Se os praticantes de Yoga ficarem conscientes o tempo todo da ahimsa, haverá uma transformação profunda na sociedade. Os shastras, textos tradicionais do Yoga, convidam o praticante, como corolário natural da prática da não-violência, a adotar uma dieta vegetariana.

Em sânscrito, vegetarianismo se diz shakaharah. Shakaharah significa literalmente 'comedor de vegetais' (shaka = vegetal). A pessoa não vegetariana é chamada mamsaharah, que significa 'comedor de carne' (mamsa = carne). O Manudharmashastra, um texto de mais de 2.000 anos de antiguidade, dá a seguinte explicação sobre a palavra mamsaharah, 'comedor de carne':

'Os sábios declaram que o significado da palavra mamsa (carne) é [o seguinte]: 'ele (sa) irá comer minha carne [na próxima encarnação] se eu (mam) comer a dele agora'.

Portanto 'mamsa' significa literalmente 'eu + ele'. Isso nos leva ao tema da unidade que existe na criação e à constatação de que, qualquer coisa que fizermos contra a harmonia universal, irá irremediavelmente nos atingir no futuro.

Algumas razões para o praticante de Yoga se tornar vegetariano

O vegetarianismo tem sido adotado maciçamente pelos praticantes de Yoga desde milênios atrás, por três motivos:

1)    o dharma e a ética ambiental,

2)    a saúde e

3)    o progresso espiritual.

Em relação ao primeiro ponto, vale lembrar o contexto da experiência do George: considera-se comer carne um crime contra a lei universal, porque isso significa participar, mesmo que indiretamente, em atos de crueldade e violência contra o reino animal, mas também contra o meio ambiente, quando somos coniventes com a destruição das florestas para fazer pasto para engordar o gado. Se uma parte da extensão de terra fértil usada atualmente para criar gado fosse utilizada para plantar cereais, o problema da fome no mundo acabaria imediatamente.

Em relação à questão da saúde, está mais do que claro que uma dieta rica em carnes é diretamente responsável por uma interminável série de problemas de saúde, que vão desde a prisão de ventre até o câncer de cólon, desde o mal de Parkinson até o mal da vaca louca, desde a halitose até problemas cardíacos como o enfarte, que, aliás, é a principal causa de mortes no mundo. Se continuarmos de olhos fechados para essas constatações gritantes, continuaremos vivendo mal e morrendo cedo. Uruguai, por exemplo, país onde o consumo de carne vermelha é maciço, é recordista planetário em mortes por câncer de cólon (em números relativos à população).

Em relação ao último ponto, o progresso espiritual, devo dizer que nem todas as tradições espirituais do Oriente abraçaram o vegetarianismo. O budismo tibetano, por exemplo, não menciona o assunto. Isso acontece por dois motivos. Por um lado, o Tibet é um país íngreme, alto e muito frio, onde não é possível para a maioria da população seguir uma dieta vegetariana. Por outro lado, Buda não quis colocar nenhuma restrição a seus monges em relação à alimentação para evitar que eles se apegassem a uma dieta ou deixassem de aceitar o alimento que lhes era dado como esmola.

De fato, o próprio Buda morreu em decorrência de uma intoxicação que adquiriu num jantar onde lhe foi servido porco, que ele não rejeitou pela questão do desapego mencionada acima. Não obstante esses dois motivos, e outros que poderíamos mencionar, o Dalai Lama recomenda aos seguidores do budismo tibetano a dieta vegetariana.

Excetuando-se o budismo, todas as demais tradições ascéticas da Índia são taxativas em relação à dieta vegetariana: hindus, jainistas e parses aderem desde tempos imemoriais ao vegetarianismo como meio para purificarem não apenas seus corpos mas igualmente suas mentes e corações.

Para o yogi consciente, devorar a carne de animais mortos é um ato de barbárie que carrega consigo conseqüências kármicas muito indesejáveis.

Considera-se como regra que, se o alimento foge de você quando você estende sua mão para pegá-lo, você não deve comê-lo. Se estender minha mão para pegar um frango com a intenção de matá-lo para comer, é natural que ele fuja para proteger sua vida. Até mesmo animais com limitações de locomoção como as ostras fugiriam de você se tivessem pernas e sentissem que você está atrás delas para comê-las!

Por outro lado, o reino vegetal parece dar seus alimentos sem demasiado sofrimento. Se estender minha mão em direção a um cajueiro para pegar seus frutos, este generosamente permite que me alimente com eles. A árvore não sofre, o alimento é bom e eu tenho direito de me beneficiar dele. Por causa disso, considera-se que a dieta vegetariana esteja em harmonia com o dharma.

A lista de razões para adotarmos o vegetarianismo não se esgota aqui. Sugiro que o leitor amplie sua pesquisa lendo bons livros sobre o assunto ou pesquisando na internet. Um bom começo é visitar o website da Sociedade Vegetariana Internacional no Brasil: http://www.vegetarianismo.com.br/

A transição para o vegetarianismo

Então, como implementar uma dieta vegetariana sem criar um trauma em nossos hábitos? Existem duas opções. A primeira, radical, é simplesmente parar da noite para o dia, após haver refletido e amadurecido a idéia por tempo suficiente como para não se arrepender da decisão ao primeiro convite para o churrasco do próximo domingo.

A segunda, mais adequada para muita gente, é implementar uma série de mudanças graduais nos hábitos alimentares e começar a entrar com mais regularidade na cozinha para escolher e preparar o próprio alimento. Ambas as opções exigem planejamento, pesquisa, bom senso e, principalmente, uma mudança de visão em relação ao que significa realmente alimentar-se.

É preciso ter muita coragem para combater o preconceito e os hábitos sociais arraigados. Um vegetariano recente pode ouvir comentários como estes, da parte de seus amigos ou família: 'Então você virou vegetariano? Você está comendo só grama?' 'Mas essa canja tem pouquinha galinha. Você não vai comer mesmo assim?' Se você não mantiver o foco em seu propósito, a pressão social ou a familiar podem fazer fracassar seu plano.

Pessoalmente, parei de comer carnes e ovos há mais de vinte anos. Em verdade, já havia tomado a decisão no momento em que tive meu primeiro contato com o Yoga, há mais de vinte e cinco anos. Porém, quando anunciei para a minha mãe, desde o alto dos meus treze anos de idade, que havia decidido parar de comer carnes, ela simplesmente me deu uma bofetada e disse: 'Se você acha que vou cozinhar especialmente para você sem carne, está redondamente enganado'. O assunto morreu aí mesmo, mas eu não desisti. Hoje em dia, minha mãe adotou a dieta vegetariana e ajuda muita gente que quer parar de comer carnes.

Não fui bem sucedido naquela primeira tentativa por causa da minha situação de dependência familiar. No entanto, o tempo passou e, quando tornei-me  e comecei a morar sozinho, consegui finalmente realizar esse objetivo. Devo dizer que não me custou nada parar com as carnes e os ovos, pois minha motivação em relação à prática era muito forte e, depois que você desenvolve uma certa sensibilidade através da meditação, os mantras e as práticas mais sutis do Yoga, o vegetarianismo torna-se uma necessidade.

Definição de vegetarianismo no contexto do Yoga

Por vegetarianismo, entende-se aqui a dieta alimentar que exclui quaisquer tipos de carne, seja de vaca, ovelha, porco e outros mamíferos, mas igualmente a das aves, peixes e 'frutos do mar'. Os ovos tampouco fazem parte da dieta vegetariana do Yoga, pois se considera o ovo um tipo de carne líquida.

Mesmo se formos considerar o ovo não galado, ele não faz parte da dieta simplesmente por uma razão de higiene: ovos não galados são menstruação de galinha e, de modo geral, os yogis não se sentem muito confortáveis alimentando-se da descarga menstrual dos simpáticos bípedes. Aliás, uma pergunta que nenhum ovo-vegetariano me respondeu satisfatoriamente até hoje é a seguinte: qual é a diferença entre comer os ovos de uma galinha e os ovos de um peixe ou de uma tartaruga? Se você come omelete ou bolo com ovos, porque torce o nariz para o caviar?

Por outro lado, a dieta vegetariana tradicional recomendada nas escrituras admite o consumo de leite e seus derivados. É por isso que esta dieta é chamada lacto-vegetarianismo. Os derivados do leite usados na Índia, sejam de vaca ou búfala, são os seguintes: paneer, ou queijo fresco, coalhada, iogurte, manteiga e ghi, ou manteiga clarificada. Esses são produtos de fácil digestão para a maioria das pessoas, embora haja gente com intolerância a lactose que deve evitar todos os tipos de laticínios.

Na Índia não existem os queijos amarelos, curados ou gordurosos desenvolvidos na Europa e trazidos para o Brasil pelos imigrantes italianos e alemães. Na medida do possível, o yogi precisa evitar esses queijos, pois contêm um excesso de gordura saturada e são de difícil digestão, provocando um excesso de mucosidade que é extremamente prejudicial para a prática do pranayama e os exercícios de purificação, dentre outros. De resto, provindo do reino vegetal, vale absolutamente tudo.

Afora a dieta lacto-vegetariana adotada pelos yogis, existe outra opção alimentar, o veganismo, que exclui não somente as carnes mas igualmente todo alimento de origem animal, como os laticínios e o mel. O veganismo leva até as últimas conseqüências a preocupação ética em relação ao tratamento que os animais recebem das indústrias alimentar e do vestiário, eliminando sumariamente não apenas os alimentos de origem animal mas também quaisquer artigos de couro ou outros sub-produtos da mesma origem.

É bom lembrarmos que essa iniciativa nasceu igualmente na Índia, onde artigos feitos de couro como roupas, sapatos, cintos e outros acessórios, nunca foram usados por praticantes sérios de Yoga.

Vegetarianismo e Ayurveda

Uma coisa interessante na hora de escolher o alimento e o tempero que se usa para dar sabor às refeições, é se esse alimento e esse tempero estão de acordo com nosso biotipo individual. Esse biotipo individual chama-se dosha, em sânscrito.

O Ayurveda, a ciência indiana de manutenção da saúde, recomenda uma série de alimentos para cada biotipo. Nem todos os alimentos considerados bons, são bons para todos nós. Você já se perguntou porque, quando duas pessoas comem exatamente a mesma coisa, uma delas digere o alimento com facilidade e a outra não? O Ayurveda responde essa pergunta e muitas outras que possam surgir ao longo do processo de tornar-se vegetariano, indicando os alimentos mais adequados para cada tipo de constituição individual.

Se você não escolher corretamente seu alimento, não conseguirá digeri-lo bem e vai achar que a dieta vegetariana só dá gases, ou que ser vegetariano não é uma boa opção para você.

Se o amigo leitor quiser ampliar sua pesquisa a esse respeito, existem algumas dietas recomendadas para os diferentes doshas disponíveis neste mesmo website. Não obstante, para escolher com propriedade uma dieta, é preciso conhecer primeiramente seu biotipo fazendo um teste rápido que pode ser achado usando o mecanismo de pesquisa deste website.

Ser yogi = ser vegetariano?

Existem yogis atualmente que, por diferentes motivos, não aderem à dieta vegetariana. Esses praticantes podem apresentar situações peculiares de saúde, ou manter condicionamentos que lhes impedem de assumir o vegetarianismo de maneira plena, ou simplesmente não darem ao vegetarianismo a importância que ele merece na tradição. Pessoalmente, acredito que essas pessoas têm pleno direito de agirem conforme suas próprias consciências.

O aparente paradoxo que pode surgir do confronto destas afirmações com o resto deste texto resolve-se no foro íntimo de cada um. Em suma, adotarmos ou não o vegetarianismo é uma questão de ética, sensibilidade, desapego e preparo.

Um dos grandes perigos que tenho visto em relação a isso no pequeno mundo do Yoga é que algumas pessoas se acham no direito de julgarem os demais em função do que elas comem, como se ser vegetariano fosse garantia e elevação espiritual e não o ser fosse sinal do contrário.

Nunca foi correto julgar alguém em função do que a pessoa põe no prato. Adolf Hitler, por exemplo, era vegetariano. Eu não colocaria esse assassino psicopata na categoria das pessoas espiritualmente elevadas. O Dalai Lama, embora já tenha mantido durante um tempo a dieta vegetariana, come carne ocasionalmente por indicação médica. Eu não diria que ele tem uma estatura espiritual pequena.

Portanto, adotar o vegetarianismo pode ajudar, mas não é sinal de realização espiritual. Assim como não existe um teste que possa ser aplicado ao ser humano para determinar seu grau de espiritualidade, tampouco podemos considerar que a adoção de uma determinada dieta signifique alguma coisa em termos de progresso espiritual.

Se você for trocar seus condicionamentos atuais por outros, como a tendência a julgar os demais pela dieta ou a se considerar superior pelo fato de ser vegetariano, é melhor que continue comendo carne até resolver seus problemas de fundo.

Em suma, se a prática do Yoga não estiver nos ajudando a sermos pessoas melhor resolvidas, mais felizes e legais, isso pode ser sinal de que não estamos praticando com a atitude correta, de mente equânime e coração aberto. O melhor é fazermos nossa prática sem julgar a dos demais. Para concluir, deixo o leitor com uma reflexão do shaiva yogi Tirumular, do sul da Índia:

'Como pode praticar a verdadeira compaixão aquele que come a carne de um animal para engordar sua própria carne? Maior do que mil oferendas de ghi no fogo sagrado é não sacrificar nem consumir nenhuma criatura viva.'

Texto de Pedro Kupfer

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Será que ele é iluminado?
05 de Abril de 2010

Um dia destes, uma pessoa me perguntou sobre o nosso mestre: “Será que ele é iluminado?”. A pergunta é bastante subjetiva, e revela a maneira em que muita gente olha para os mestres. Não há um teste que possa ser aplicado para determinar se alguém é iluminado ou não. De qualquer maneira, antes de responder à pergunta, teríamos que ver o que significa ser “iluminado” para a pessoa que coloca a questão.

Iluminação = poderes paranormais?

Na cultura do Yoga estamos expostos a textos que falam de maneiras muito diversas sobre a iluminação. Alguns desses livros se atêm à descrição do que aconteceria como o mukti, aquele que alcançou a libertação, em termos de transformação interior, plenitude constante e outras conquistas associadas com moksha. Todavia, são descritos em detalhes os diferentes graus de samadhi e o estado nirvikalpa, quando acontece a cessação voluntária da atividade cerebral, por si mesmo uma façanha digna de menção.

Outros textos já se dão outras liberdades poéticas e falam abertamente sobre pessoas que levitam, conversam com espíritos, ou lêem o pensamento dos demais. Há ainda outra categoria de textos que narram prodígios como yogis viajando para outras dimensões, materializando objetos e realizando outros prodígios, que são verdadeiras viagens de LSD ou, no melhor dos casos, pura fantasia.

Agora, é preciso separar o que seja uma licença poética do que é a realidade. Lendo, por exemplo, a biografia do yogi tibetano Milarepa, vemos que a pessoa que escreveu esse texto fala sobre os siddhis, poderes paranormais, com muita naturalidade. Se a intenção de incluir uma descrição desses poderes é chamar a atenção do leitor para aquilo que o yogi quer ensinar em termos de compaixão, não-violência, valores ou o que for, então a liberdade poética se justifica.

Como nenhuma das aparentes façanhas desses yogis contemporâneos foi feita de maneira isenta, em condições controladas, para demonstrar que a pessoa, inequivocamente, possui algum poder especial, podemos considerar que a quase totalidade desses fenômenos sejam truques de prestidigitação ou armações para enganar os crédulos.

Não obstante, muitas das pessoas que praticam Yoga hoje em dia consideram que os sinais de poderes paranormais sejam uma espécie de garantia de que o yogi em questão seja iluminado. Sabemos positivamente que ambas as coisas não estão, de fato, ligadas. Podemos afirmar isso, pois existem diversos exemplos na literatura do Yoga que nos mostram que, o fato de alguém, por exemplo, conseguir deixar de respirar por longos períodos, ou parar o batimento cardíaco, não torna necessariamente essa pessoa compassiva, ou sequer com um comportamento minimamente ético.

Tal é o caso do yogi Ramdass, narrado na introdução do livro Patañjali et le Yoga, por Mircea Eliade, que conseguia ficar sem respirar por mais de 40 dias, mas fugiu com a mulher do vizinho logo depois dos experimentos feitos com ele por um grupo de médicos britânicos. Um guru muito popular na década de 1970 surpreendia os pesquisadores com seu assombroso domínio do batimento cardíaco, que conseguia controlar à vontade, mas, ao morrer, tinha uma longa réstia de processos por estupro e assedio sexual das suas alunas. Portanto, pelo menos nós, não vemos a conexão entre esse tipo de siddhi e a iluminação.

Por outro lado, os Shastras do Yoga nos dizem o seguinte, em relação a esses poderes: “Os siddhis, poderes psíquicos, se revelam contraproducentes para o yogi que pretende estar totalmente absorvido em Parabrahman, o Ser, ilimitado e eterno”. Amanaska Yoga, I:85.

“O yogi não deve mostrar seu poder a ninguém. Se o fizer, agirá como um idiota, um louco ou um surdo. Ele precisa manter seu poder secreto. De outra forma, sem dúvida, terá muitos discípulos, mas ficará demasiado ocupado com o seu trabalho e não terá tempo para a prática pessoal”. Dattatreya Yogashastram, 201-207.

O papel do guru.

Começamos a compreender o assunto olhando para o significado da palavra guru: a sílaba Gu indica escuridão ou ignorância, o principal motivo para não reconhecermos a nossa própria Natureza; a sílaba Ru indica aquele que tem a capacidade de remover esta escuridão.

Ou seja, o guru é aquele que possui a capacidade de eliminar a ignorância que temos em relação a algum objeto. Neste caso, estamos falando da ignorância em relação a nós mesmos, àquilo que somos. Mas, literalmente, a palavra guru, significa “pesado”. Se relacionarmos este peso a uma pessoa, podemos dizer que esta pessoa tem o “peso do conhecimento.”

Então, este privilégio de possuir o peso do conhecimento não é algo exclusivo de líderes espirituais, mas de todos aqueles que têm a capacidade de nos esclarecer em relação a algum assunto que ainda ignoramos.

Ao longo da nossa história tivemos vários gurus. No campo da ciência, filosofia, etc. Pessoas que enxergavam coisas que ainda não eram óbvias para a maioria, e que transformaram para sempre vidas, comportamentos, culturas e teorias.

Podemos dizer que há muitos gurus ao longo de nossas vidas, dependendo do estágio em que estamos e também dos assuntos que nos interessam. Nossos pais são nossos primeiros gurus. Educam-nos, ensinam os primeiros passos. Depois vêm nossos professores. Aprendemos a ler, escrever, realizar cálculos. Conhecemos a história do mundo em que vivemos, etc. Todos assuntos que antes ignorávamos. O mais interessante em tudo isso, não é o fato de que eles saibam sobre coisas que ignoramos. Mas a capacidade que estas pessoas têm de lançar a luz do conhecimento delas sobre nós.

Mesmo ontem, meus e amigos e eu, tivemos a oportunidade de estar na frente de um iluminado guru. Já passadas às dez horas da noite, após um dia exaustivo de estudos, um de nós resolveu lançar uma pergunta ao nosso mestre com o simples propósito de descontrair a sessão de perguntas sobre as aulas do dia. Sabíamos que ele riria da pergunta e não tomaria aquilo como zombaria, pois seu bom-humor é inabalável.

Aqui na Índia, o esporte nacional é o cricket. E nosso mestre é fascinado pelo esporte. Mas como ignorantes no assunto, acabamos não entendendo nada do que acontece no jogo. Então, mesmo após nos proporcionar todo um dia de profundos estudos, Swami Dayananda, sorridente, explanou o jogo por mais de quinze minutos para a feliz platéia de alunos brasileiros.

Um guru não é aquele que se faz de superior por causa do conhecimento. Um verdadeiro guru, não faz shows de mágica ou performances para impressionar os demais. Seja qual for o assunto, o guru é aquele que tem a compaixão para acabar com o sofrimento dos demais, e faz isso ensinando.

Definindo a iluminação.

À pergunta que me foi dirigida, “Será que seu mestre é iluminado?”, é obvio que a minha resposta é um categórico “sim!”, uma vez que venho todos os anos para a Índia para aprender com ele. Se não achasse que meu mestre é iluminado, se não percebesse o bem que me faz aprender com ele, o que ele tem para ensinar e o que eu tenho para me inspirar com seu exemplo, ficaria em casa tranquilamente.

Ora, se existe um termômetro que possa medir se alguém é iluminado ou não, esse termômetro é a compaixão que a pessoa mostra para com todos os seres vivos. Isso, meu mestre tem de sobra. Mas vamos às definições: iluminação é uma palavra portuguesa usada como sinônimo de nirvana ou moksha, que são termos técnicos do sânscrito que definem o estado de liberdade. Vejamos, de perto, o que nos dizem as escrituras do Yoga a respeito desse estado:

“Quando os cinco sentidos e a mente estão parados e a própria razão descansa em silêncio, começa o caminho supremo. Esta firmeza calma dos sentidos chama-se Yoga”. Katha Upanishad, VI

“O yogi que possui a iluminação completa vê, pelo olho do conhecimento, o universo inteiro como seu próprio Eu e vê a si mesmo como o Uno presente em tudo”. Atmabodha, 47

“Naquele que tiver controlado totalmente a instabilidade, ocorre uma identificação entre o observador, o objeto observado e o ato da observação, assim como o cristal se identifica com a cor do objeto próximo”. Yoga Sutra, I:41

“Todas as coisas se revelam pelo conhecimento do Ser. O Ser se revela por todas as coisas. Como a natureza desses dois aspectos é a mesma, deve-se meditar sobre o conhecedor e o conhecido como sendo um só”. Vijñanabhairava, 137

Conclusões.

Outra definição de iluminação, pouco ortodoxa, mas muito clara, foi dada por Swami Dayananda, nosso mestre, num satsang recente: “A causa do sofrimento é o desejo, e o desejo nasce do fato de não nos sentirmos completos do jeito que somos. Essa distorção, esse sentimento de incompletude nasce, por sua vez, da ignorância: um bêbado, em casa, pede para um amigo: “me leve para casa, me leve para casa!” O outro sai com ele, dá uma voltinha pela rua e entra de novo.

“É isso o que o professor de Vedanta faz com os alunos: mostrar para eles que já estão onde precisam estar. Só precisam se dar conta disso. Só precisamos reconhecer que, apesar desse sentimento de incompletude, somos completos e plenos dentro do que somos. Moksha, a iluminação é, basicamente, liberdade do sentimento de querer ser completo, já que nos vemos incompletos, como o bêbado da piada”. Então, um mukti, um iluminado, é alguém que se vê livre desse sentimento de incompletude.

Nem tudo o que brilha é ouro no mundo da espiritualidade. As definições dadas pelo Shastras acima citados nos mostram claramente o que é iluminação. Se forem dadas outras definições que não tenham a chancela das escrituras, seria questionável a validade da pergunta do título deste texto. Pelo menos, questionável à luz da tradição do Yoga. Namaste!

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Por que Vedanta?
25 de Março de 2010

Suponhamos que eu lhe peça para me dizer a cor de um objeto. Uma cor só pode ser reconhecida através de um dos nossos sentidos. E este é a visão.


Eu não posso usar minhas narinas ou ouvidos para reconhecer uma cor. É preciso que eu use o meio de conhecimento adequado.


Vedanta não é filosofia, teoria, tampouco religião. Vedanta é pramana. Esta palavra se traduz como meio de conhecimento. Ou seja, o meio de conhecimento adequado para o autoconhecimento chama-se Vedanta.


É dito que existem várias formas para “alcançar” este autoconhecimento. Mesmo dentro do Yoga, existem aqueles que dizem que existe um “caminho” para aquele que é mais emotivo, outro para intelectuais, outro para pessoas mais extrovertidas.



Então, novamente volto às raízes do yoga, aqui na Índia. Pego de uma vez, três linhas: Karma, Bhakti e Jñana. O primeiro pensamento que nos vem é o de identificar o que cada uma destas palavras significa. Karma, que significa ação, o yoga da ação. Bhakti, que significa devoção. O yoga devocional. Jnana, que significa conhecimento. O yoga da disciplina do estudo dos textos sagrados, antigos, os Sastras. Em um instante já separamos aquilo que deveria ser inseparável. O yoga, a união, a junção.  

Seria, então, possível praticar ásanas (ação) sem conhecimento? Sem devoção? Seria possível ser um devoto sem ação, ou sem conhecimento sobre aquilo que ele se dedica? Poderia haver conhecimento sem ação? É claro que a resposta é negativa. Não podemos separar os diferentes aspectos de uma prática de yoga. 

Quando o objetivo, no final, é o mesmo: autoconhecimento. 


Mesmo que aceitássemos que houvesse diferentes caminhos, digamos que agora, estivéssemos todos à frente daquilo que buscávamos. Nem mesmo estando à frente de um objeto, significa que o estamos enxergando. É preciso de luz para enxergar um objeto. E esta luz chama-se conhecimento.


À medida que acumulamos mais conhecimento, reduzimos o espectro de ferramentas que usamos para o autoconhecimento.


É como fazer dieta. Quando não conhecemos se um alimento pode nos fazer mal, não o eliminamos de nosso cardápio. Mas na medida em que conhecemos aquilo que é melhor para nossa saúde, eliminamos algumas opções.



Assim é o amadurecimento em relação ao autoconhecimento. No início, existe um vasto cardápio a ser provado, mas na medida em que refinamos o nosso discernimento e capacidade de questionar, realizamos que é apenas a luz do conhecimento que pode iluminar a nossa natureza. 

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Considerações
28 de Fevereiro de 2010

Visto que o último texto causou uma grande comoção venho através deste outro pequeno texto, fazer algumas ponderações.


De fato, no que se trata o cotidiano da Índia, posso continuar dizendo que é uma loucura. Tipos dos mais variados. Alguns mais perdidos que os outros. Ofertas de tudo aquilo que se possa imaginar.


Mas não posso deixar de tirar o chapéu para algumas coisas que me deixam extremamente feliz e confortável.


Aqui o sorriso das pessoas é quase que espontâneo. Sou bem recebido em todos os lugares. As pessoas são calorosas e muito curiosas, às vezes até ingenuamente passando o limite daquilo que na nossa cultura achamos ser pessoal. Porém, não há problema algum nisto. É bem engraçado.


Quando passo pelas lojas, os vendedores ainda me reconhecem pelo nome. Mesmo um ano depois! No ashram a mesma coisa!


Todos te reconhecem e vêm perguntar como anda a vida e tudo mais. Alguns arriscam a aprender algumas palavrinhas em português.


Mas, de fato, aquilo que há de mais incrível aqui é o Swami Dayananda.


Não sei se, a cada ano que retorno, estou mais maduro para entender as coisas que ele fala. Ou se o “bom velhinho” se supera cada vez mais. O ponto é que o ensinamento que recebemos dele aqui é incomparável. A forma em que ele passa o conhecimento é incrível! O jeito carinhoso que ele tem ao nos receber. A disposição para ensinar. As risadas e piadas intermináveis.


É um tesouro inestimável aprender com esta pessoa tão especial e generosa.


Mesmo no meio de tanta coisa falsa e irritante como descrevi no texto anterior, agora surge novamente aquela sensação de que ano que vem estarei aqui de novo!

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Mais uma chegada
19 de Fevereiro de 2010

Eu havia jurado a mim mesmo que não iria mais colocar, neste site, textos que tivessem cunho pessoal. Mas não deu!


De fato, não é pessoal. No entanto é meu ponto de vista sobre mais uma chegada na India.


Esta já é a terceira vez que venho estudar no Dayananda Ashram. Para um estudante de Vedanta, acho que não há lugar melhor para estar. Porém, estar no Ashram ,inclui estar na India. E isto é sempre um capítulo à parte.


Eu acho que devo esquecer o quanto é desconfortável a chegada por aqui. Para começar, saio de um calor de 40⁰C para quase 10⁰C (lembrem-se, estou dando minha opinião).


Aí você já sabe que logo na saída do aeroporto haverá trinta indianos disputando você para entrar no táxi deles. E logo, vem um malandro que não fez nada, mas quer levar uma graninha. Tudo bem, faz cara feia que ele sai.


Já dentro do táxi surge a ansiedade em relação ao buraco onde vamos parar. Você vai com o táxi pelo meio daquelas ruas lotadas de pessoas e tudo mais. Sujas, empoeiradas e barulhentas. E de repente, o cara diz: “é aqui o hotel.”


Você olha e não acredita! Aquele hotel encardido é aquele que você reservou na internet. Só que na foto eles devem ter usado o photoshop para tirar a poeira!


Tudo bem, passadas as minhas frescuras iniciais, até que o quarto era muito bom. E não refletia o que era a fachada do hotel.


Passada uma noite, era hora de pegar o trem para Rishikesh. Tudo estava ótimo, até que um indiano resolveu usar o celular como rádio. Aí foi um Deus nos acuda! A viagem inteira o cara ouvindo músicas indianas com o volume no talo! Pior era quando ele resolvia cantar junto...


Fim da viagem e... ufa,o cara do Ashram estava esperando na estação de trem. Jogando as tralhas no táxi e chegando tranquilamente ao Ashram!


Mas quando tudo dá tão certo assim, é porque não tá certo. O quarto em que fui parar era bem ruim! Frio, úmido, sem chuveiro e a cama apenas com um fino colchonete. Foi uma noite bem desagradável. E aí, mais uma vez me perguntava: “o que vim fazer aqui?”


Será que eu esqueço? Sempre acordo com dores nas costas! Agora tem frio, depois são os mosquitos!


Rishikesh mudou bastante em um ano! Construiram mais uma ponte. Novos barraquinhos apareceram. Apesar da cidade parecer bem vazia. Algumas lojinhas estão fechadas.


Cada vez mais estrangeiros lotam as ruazinhas e sente-se que a essência do estudo não anda mais por aqui. Não quero parecer preconceituoso, mas a maioria que está por aqui, não tem o objetivo de estudar. São turistas mesmo. Tudo bem, mas serão eles que dirão em seus países de origem o que viram na cidade sagrada do Yoga.


Ontem mesmo, num restaurante, presenciei uma gringa dando uma de curandeira de dor de cabeça alheia. E logo vários curiosos vieram perguntar-lhe onde ela havia aprendido tais coisas.


Enfim, é minha opinião, pois não acredito nestas coisas e acho que não combinam com o propósito da cidade que já foi morada de grandes Yogis.


Para fechar com chave de ouro, ao dormir, começou uma rave ao lado do Ashram! Isso mesmo! Música eletrônica indiana bombando até altas da noite!!


De certo sei que apesar dos pesares, aqui continua sendo a fonte de conhecimento. Onde podemos encontrar bons professores. Onde podemos entrar em contato direto com a tradição, e vivê-la. Onde podemos encontrar bons livros para estudar (já que no Brasil todos os livros de Yoga estão nas prateleiras de auto-ajuda). Onde podemos vivenciar a verdadeira cultura indiana, mesmo que por aqui, ela esteja ameaçada de extinção.

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O renunciante que cheirava mal e o professor de yoga
10 de Dezembro de 2009

Esta semana fui surpreendido por uma cena não muito comum em uma prática que estava guiando aqui no Rio. Os alunos já haviam chegado e se sentado. Já havíamos fechado os olhos e então, eu colocava o assunto sobre a qual a prática seria baseada, guinado as pessoas em uma breve reflexão. Normalmente sempre chega um ou outro atrasado e não conseguimos dar tanta atenção à esta pessoa se ela é novata, pois os outros já estão envolvidos no silêncio e reflexão de suas práticas. 

Pois bem, neste dia, ao concluir a reflexão inicial, abrimos os olhos para começarmos a rotina de ásanas, e para minha surpresa, me deparo com uma pessoa toda vestida de laranja. Logo reparei que era estrangeiro, e imaginei que fosse um destes renunciantes itinerantes que viajam por aí espalhando seus ensinamentos. 

A princípio fiquei um pouco apreensivo com a perspectiva de ter um renunciante na sala, uma pessoa que deva possuir um vasto conhecimento sobre Yoga, medi ainda mais as minhas palavras e conduzi a prática com bastante calma. 

Nos primeiros movimentos que o vi executar, rapidamente me veio à memória a imagem de algumas pessoas que vi praticando na Índia, que certamente transformaram minha prática pessoal. Lembro de ver pessoas executando ásanas sem a menor preocupação que temos com o alinhamento, mas extremamente entregues àquele momento de “prece” em movimento. De fato, uma das coisas mais lindas que já vi. 

Fiquei imaginando se deveria fazer algum ajuste, e como agiria se fosse ajustá-lo. Será que poderia tocar num renunciante? Como deveria tocar? Talvez só falar? Por que ajustar? Afinal se era uma prática igual as que eu tinha visto na Índia, realmente não merecia nenhum ajuste. 

Observei bastante a prática até ter minhas primeiras impressões. Aproximei-me dele e a primeira coisa que pude reparar era que cheirava mal. Logo um renunciante. Tudo bem, vá lá. Renunciar e bom, mas não se precisa abrir mão de um valor tão simples e importante quanto a limpeza, já que isso é demonstrar falta de respeito por aqueles que estão ali dividindo o mesmo espaço que você. 

Então soou o alarme na minha cabeça. Observando ainda com mais atenção pude perceber que em várias posturas que ele fazia, seus olhos se arregalavam, sua respiração se acelerava e ele lutava para se acomodar. Achei aquilo tudo muito estranho, pois a prática não era forte e nem acelerada, muito menos com posturas acrobáticas. Logo pensei: “Pronto! Dei de cara com um renunciante de araque e fã de kundalinite!” 

Infelizmente, minha intuição não falhou. Conduzi a prática até o fim. Tudo correu perfeitamente bem, mas a história ainda não havia acabado. Quando terminamos a aula, o tal renunciante veio me fazer várias perguntas sobre como conduzia a prática e etc. Ele me confessou que gostava muito da prática no estilo ensinado por Swami Sivananda. Alegava que gostava de permanecer em cada postura por períodos prolongados, tipo cinco minutos. E que junto desta permanência, fazia uma visualização dos chakras e repetia mentalmente o bija mantra de cada um deles. 

Para completar a sua descrição do resultado desta prática, novamente arregalou os olhos dizendo que aquilo dava o “maior barato”, como quem explica uma experiência com alucinógenos. De fato, algo não cheirava bem. 

Continuando a história, veio me dizer que pertencia a um grupo bastante conhecido de Yoga, que tem toda uma hierarquia e planos megalomaníacos para gerir os destinos do mundo. Eu já tinha começado a compreender a situação, mas fiquei quieto para ver onde aquilo ia nos levar. E como suspeitava, o discurso do tresloucado renunciante não chegou a lugar algum. 

Moral da história: 

Todo praticante e estudioso sério de Yoga entende muito bem que o objetivo de uma vida de Yoga não é ter experiências incríveis com manipulações dos chakras. Patañjali nos alerta sobre isso no capítulo III do Yoga Sutra quando fala sobre os siddhis. Todos estes tipos de experiências acabam gerando um apego e identificações exageradas ao ego, que por sua vez se assume como o grande ator desta vida. Um praticante sério entende que a meta de uma vida de Yoga é moksha. E não o cultivo de experiências. 

Os Vedas nos ensinam que qualquer tipo de experiência gera um fruto. E que todo fruto criado a partir de uma experiência tem início, meio e fim. Ou seja, é limitado por tempo e espaço. Moksha é exatamente o oposto disso. É o conhecimento, a realização de que não somos limitados. E por sua vez, não é fruto de uma ação, de uma experiência. 

No fim do primeiro capítulo da Taittirya Upanisad existe uma discussão entre o grande mestre Adi Shankara, que defende o conhecimento como instrumento para a liberdade e os karmatas, que se apóiam numa visão distorcida sobre o valor dos rituais prescritos nos Vedas: 

Como realizar moksha? 

Através da ação, ou então uma combinação entre ação e conhecimento (ação com base no conhecimento ou conhecimento com base na ação) e, por fim, somente o conhecimento. Deve-se estudar os Vedas por inteiro, inclusive as Upanisads. Ele estuda todos os Vedas para que depois ele possa realizar os rituais. A primeira seção dos Vedas tem o foco na ação ritual, karma kanda. Todo o estudo está focado nestes rituais que conduzem à liberação. A liberação desejável é a liberação eterna. Desenvolveremos isso mais à frente. 

O valor do conhecimento e o da ação: Shankara vs. os karmatas 

Para Shankara, tudo aquilo que é produzido através de uma ação tem um fim. Moksha surge de ações que não são impulsionadas pelo desejo, evitando fazer aquilo que não deve ser feito. As ações devem ser apenas aquelas ações diárias obrigatórias (os rituais, ou o svadharma, os seus deveres). Assim papam não será produzido. A liberação surge por esta não acumulação de papam. Pois você não se amarra mais aos frutos negativos das ações. 

Porém, mesmo assim, acumulando punyam você volta a nascer. E ainda existe o sañchita karma, a bagagem da totalidade dos karmas, do qual ainda surgirão muitos e muitos novos nascimentos, até o esgotamento total dele. 

Ação com base no conhecimento 

Moksha surge através da ação com base no conhecimento. Existe uma conexão de ação com conhecimento. Existe a capacidade de produzir outro efeito. É dito que o iogurte produz febre. O iogurte produz a febre, mas se adicionar açúcar ele não permanece mais tão acido e não produz a febre. São analogias usadas para exemplificar  a ação unida ao conhecimento. 

Neste caso, a ação produzida tem um fim. Então este resultado que é criado não é permanente. As palavras dos Vedas não têm a intenção de criar ou produzir uma coisa nova. Têm somente a intenção de apontar aquilo que já existe. Os Vedas revelam, não produzem. 

Se moksha é eterno, não pode ser produzido a partir de nenhum ritual. O meio para moksha é conhecimento. Não há nada que uma ação realize para revelar a liberdade. O obstáculo real para a liberação é a ignorância. O resultado da ação é diferente de moksha. Logo, as duas não podem estar juntas. A ação está ligada ao corpo, a mente ou ao emocional. 

O resultado da ação é de 4 tipos: 

1.       A criação (utpati) – uma ação pode criar uma coisa nova. 

2.       Purificação (samskara) – a purificação do corpo 

3.       Modificação (vikara) – a modificação de um objeto 

4.       Alcançar alguma coisa (apti) – se mover de um lugar para outro 

Estes resultados são todos diferentes de moksha. Há obras na nossa tradição que falam sobre as ações como formas de se alcançar um resultado. A Katha Upanisad, por exemplo, diz que “pelo caminho do sol, se alcança um resultado”. Mas em nenhum eles dizem que este resultado é diferente do que você já é. 

A tradição, Sruti, nos fala sobre certos rituais, que podem gerar resultados desejáveis. Mas apegar-se constantemente a estes resultados mantém a pessoa condicionada. Ela age pelo desejo de alcançar aquele resultado que lhe traz conforto ou prazer (artha ou kama). 

Atma não é um lugar ou objeto a ser alcançado, pois já está em todo lugar. Então como posso dizer: “ir para algum lugar?” A pessoa que está indo e o lugar que ela vai são a mesma e única coisa. O problema é não reconhecer isto. 

Através deste argumento entendemos que moksha não é algo a ser alcançado. Moksha é meu estado natural. Porque um objeto a ser alcançado é sempre diferente de mim, ou seja, limitado. Um lugar que seja para ser alcançado por um “viajante” para onde ele está indo, deve ser diferente do viajante. Pois senão, não há a necessidade de ir a lugar algum. 

O papel do Veda é revelar aquilo que os nossos sentidos e mente não podem e não conseguem perceber. Veda é pramana para o Ser. Veda toca em dvaita e advaita: o que é não-dual, e o que é dual. Sem negar a dualidade da nossa existência individual, o Veda é autoridade para a revelação daquilo que não é dual. 

O argumento do karmata é que eles dizem que existem textos que falam sobre o valor da ação. Como o Veda fala sobre ação, eles dizem que os jnanis estão indo contra o Veda. A Shruti fala em ir (gati) como o fruto da ação. São as partes dos Vedas que falam sobre as grandezas (ausvarya) alcançadas pelas ações. Então os karmatas dizem que o argumento dos jnanis é contraditório. Mas para os jñanis, qualquer outro lugar (lokah) que se alcance é apenas transitório e, portanto não é moksha

Estes textos que falam em gati estão apenas focando no fruto da ação (karya Brahma). Então os objetos alcançados também são Brahma. Mas isto não é o fim. O Veda vai mais fundo. Então não se pode considerar somente esta primeira etapa. 

Na verdade a realidade é uma só, não seguida de uma segunda. E neste conhecimento se vê que Brahma é a realidade única, apesar das diferentes manifestações. Este é o ensinamento da Sruti. Qualquer tipo de combinação entre ação e conhecimento é impossível porque a natureza de ambos é oposta.  

O conhecimento é aquele que o assunto é a dissolução total do objeto e suas diferenças. O conhecimento mostra que as diferenças são apenas ilusórias. E em relação à ação o conhecimento se opõe. A ação é alcançada através de alguém, ou seja, alguém faz alguma coisa para alcançar um objetivo. Então neste caso vemos 3 objetos diferentes (ator, ação e objeto a ser alcançado). 

Quando se fala em conhecimento não há diferença, pois aquele quem conhece, conhece a si mesmo. Todo este raciocínio vai nos levar a conclusão de que um destes dois é falso. E o que é falso é o dual, pois é aparente. 

Tudo bem que a dualidade existe, é natural, mas não é real. A dualidade é fruto da ignorância e por isso mesmo dizemos que ela é real. A Sruti fala em dualidade, ela apenas supõe que a realidade poderia ser dual, mas nunca a aceita. 

Shankara cita então as Upanisads:  

Aquela pessoa que vê a dualidade como sendo o real alcançará a morte. Katha Upanisad.  

Ou seja, morrerá e renascerá várias vezes, pois está identificada com o corpo. Quando a pessoa enxerga apenas a dualidade, vê muito pouco, pois não consegue enxergar o todo. Se eu sou diferente de Isvara, conheço apenas aquilo que é limitado. 

Aquilo que tem a característica de ser um (que não é seguido de um segundo, único) é a consciência (Brahman). Este tem a característica de ser real, é sempre presente, nunca desaparece. 

O que deve ser conhecido de fato é aquilo que é um. Brhadaranyaka Upanisad. 

Tudo aquilo que existe e é classificado de formas diferentes é Brahman. Mundaka Upanisad. 

Para Shankara, os rituais não serão possíveis se você não considerar a diferença de sujeito e objeto (quem faz e o fruto do ritual). Também não poderá fazer o ritual sem que seja oferecido a uma deidade. E então aí vemos uma dualidade. Uma expectativa de que o resultado seja dado por esta deidade a quem se ofereceu o ritual. Aquele que faz o ritual se vê separado daquele quem oferece o fruto da ação. Então, tudo isto vai contra as afirmações das Upanisads acima citadas. 

Nós escutamos, nos Vedas, milhares de maneiras que falam sobre o conhecimento na negação da visão da dualidade. É dito que não existe separação entre o indivíduo e o todo. Existe, então, uma oposição entre conhecimento e a ação. Portanto não há como juntar coisas de natureza oposta. Então, para Shankara, a visão dos karmatas que dizem que moksha surge da união da ação e do conhecimento, não é possível. 

Os karmatas dizem: 

Considerando que as ações são comandadas pelos Vedas, Shankara contradiz os Vedas. Negando o agente da ação e o ritual, você afirma que tudo é falso. Assim como, o conhecimento falso sobre a serpente (e a corda). Destruindo o conhecimento falso, nós, então temos o conhecimento da realidade. Se for assim, eliminando todos estes, a conseqüência disto seria uma oposição (uma contradição). Porque você estaria dizendo que as Srutis que comandam ações, não teriam significado. Se ações são indicadas, devem ser feitas. 

Shankara diz: 

A Sruti diz que o ser humano deve se libertar do Samsara. Com isto em mente o próximo ponto importante para a Sruti é a renuncia (nirvrtti) através do conhecimento. Pois a ignorância é a causa do Samsara. 

O problema é a interpretação do Veda 

No início do capítulo 15 da Bhagavad Gita, o samsara é comparado à figueira que tem as raízes apontadas para cima e as folhas para baixo. 

As folhas representam as milhares de formas através das quais o tronco desta árvore se nutre. A figueira tem um tronco formado por um emaranhado de troncos menores. Este emaranhado representa o quanto nos embolamos nas nossas vidas. O nosso samsara

E as raízes no alto (urdhvamula) representam a origem de tudo e que deve ser alcançada (conhecida) que é Brahman. Então o Veda pode “proteger” o samsara, se aquele que está tentando interpretá-lo, vê nas ações a ferramenta para a liberdade. O Veda liberta se aquele que o estuda entende seu verdadeiro significado. 

Concluindo: 

Uma pessoa que veste laranja deveria ter mais respeito por este conhecimento. O laranja representa tapas, o fogo, o empenho que aquela pessoa está realizando em busca do conhecimento, em busca da liberdade. Não em busca de simples sensações físicas ou mentais, que além de tudo são completamente subjetivas. Nós mal conseguimos ter controle sobre nosso corpo físico. Mal conseguimos sentar quietos para meditar. Quiçá ter conhecimento de causa sobre assuntos que praticamente ninguém, hoje em dia, tem autoridade para falar. 

É nesta hora que acabamos separando o joio do trigo. Não somente o indivíduo, mas também a “linhagem” que ele está ali representando. Um renunciante renuncia. Abre mão dos frutos das ações por causa do conhecimento. Mas já que vive entre nós, pelo menos não deveria abrir mão de usar um sabonete de vez em quando.

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Surfopanishad
30 de Novembro de 2009

Em um “secret spot”, de repente, surge um “coroa” caminhando com seu “pranchão”. Algum tempo depois aparece um rapaz com sua “hot dog”. O rapaz, quando vê os exercícios e movimentos exóticos que o “coroa” está fazendo para se aquecer, pára e fica observando pasmado. Ao terminar, o “coroa’ senta de pernas cruzadas e fecha os olhos. O rapaz se aproxima curioso, senta-se ao lado dele e espera ansioso para fazer perguntas e conversar. Assim que o “coroa” abre os olhos, começa o diálogo:

    

Quem é você? - Indaga o rapaz.
A Consciência - Disse o “coroa”.
 

Porque está demorando tanto para entrar no mar?
Apenas deixo o tempo passar naturalmente sem desejar ansiosamente que passe mais rápido ou apegadamente mais devagar.
 

Entendo....mas, vamos surfar?!
Três são as possibilidades: surfar, não surfar ou fazer outra coisa...
 

Remando em direção ao “pico”, o rapaz pergunta:

 

Como devem estar as ondas?
Quatro podem ser os resultados chegando lá: o que esperamos, o que não esperamos, melhor ou pior do que esperamos. Independente do resultado, mantenha a atitude de aceitação grata, aprenda a aceitar. Veja o mar como um presente.
 

De repente, sobe uma “série” gigante e o rapaz desesperado pergunta:

 

Não tem medo de morrer?
O medo da morte vem da identificação com o corpo, é ele quem morre, Eu  não... e observe mais uma vez, mas sem ansiedade e de forma objetiva, veja a situação como ela é, estamos no “canal”.
 

Logo depois, o rapaz “dropa” uma onda e ao retornar diz:

 

Estava perfeita mas acabou muito rápido....você também não fica “ bolado” com isso?!
Isso acontece sempre, e assim como qualquer outra experiência sensorial vivenciada, possui três fases:  começa, tem uma duração e termina.
 

O rapaz, indignado, deixa passar muitas ondas a espera daquela mais perfeita que pensa sempre estar vindo. Muito tempo se passa, o “coroa” “dropa” várias ondas e ao retornar de uma delas, o rapaz fala:
 

Não consigo escolher que onda “dropar”, o que faço?
Quando temos a capacidade de escolher, existem coisas que nos atraem e outras que buscamos evitar. Esta é uma das qualidades responsável por nossos conflitos interiores e destes, surge o sofrimento. Pare de sofrer por um resultado futuro se pode ter um agora, no presente momento.
 

Como pode enxergar tudo de forma tão filosófica e espiritual se não é monge nem está num mosteiro?
Espiritualidade e vida cotidiana são compatíveis. Partindo deste ponto de vista, surfo para compreender as leis naturais que regem a existência e para renovar o voto de viver consciente. Assim podemos viver uma vida feliz e livre de conflitos.
 

Neste mesmo momento, o “coroa” se despede do rapaz e “dropa” a maior e mais bela onda que apareceu naquele lindo dia.

 

Exercendo a consciência testemunha observamos nossa paisagem mental, somos o autor, a estória e os personagens.

Essa inspiração veio após ouvir as esclarecedoras palavras de meu professor. 

    

Boas “ondas”!        Om Tat  Sat



Texto do Professor de Yoga e surfista Gustavo Schimming

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Ser assim...
29 de Novembro de 2009

Liberdade de jogar bola


Pedalar sem camisa,


Vento na cara


Gargalhar mesmo quando o sol se põe


Sentir-se amado, sem ligar, sem celular


Mas só por saber que você existe


E é livre!


É ver cachorro brincar, rolar


E se encher de pulga


Porque eu já tive bicho-de-pé


Por que ele não pode se coçar?


Ele é livre!


É ver criança rolando na grama


E um moleque que rola na areia


Atrás da sua bola


É remar em águas quentes


Rir de três pombos


Que disputam uma placa


Proibido estacionar


Fazer improviso no sitar


Viver o dia com sorriso


E ser chato ao mesmo tempo


Até cansar

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